P o e t a s
   
 
Marcelino Duarte

Dados Biográficos:

Marcelino Pinto Ribeiro Duarte nasceu no município de Serra, no Estado do Espírito Santo, a 16/06/1788, filho natural do padre Manoel Pinto Ribeiro, "professor de filosofia em Vitória, a cujo cargo esteve a regência da cadeira de 14/06/1775 a 20/04/1827, época em que a renunciou". Como o genitor, ele exerceu igualmente o magistério, lecionando filosofia e outras disciplinas. Ordenado sacerdote por imposição paterna teve vida mais mundana do que mesmo de clérigo. Na província natal foi eleito deputado à respectiva Assembléia, no biênio de 1838-1839. Abandonando a política, passou a vigário da freguesia de São Gonçalo, Rio de Janeiro. Em Niteroi "exerceu cargos de eleição popular, regeu a cadeira de latim do Liceu da mesma cidade, cargo em que veio a aposentar-se." Por serviços prestados à Nação, o Imperador Pedro II agraciou-o com as veneras das Ordens de Cristo e da Rosa, no grau de cavaleiro. Marcelino Duarte foi o mais notável poeta espírito-santense da primeira metade do século XIX. Seus versos, líricos, sentimentais, românticos, foram publicados em 1856, na Antologia intitulada "Jardim Poético". Patrono da cadeira n. 01 da Academia Espírito-santense de Letras. Em sua homenagem a Prefeitura Municipal de Vitória deu o seu nome a uma rua no Centro da capital. Faleceu em Niterói, no arrabalde de São Lourenço, onde é também nome de rua, em 27/06/1860.



Obras:

De sua produção poética, destaca-se o poema "Derrota de Uma Viagem ao Rio de Janeiro em 1817", dividido em cinqüenta e cinco cantos, e algumas poesias dedicadas à cidade de Vitória, recolhidas por Afonso Cláudio em "História da Literatura Espírito-santense".

Participação no livro "Serra em Prosa&Versos - Poetas e Escritores da Serra, de autoria de Clério José Borges.

FONTE: ELTON, Elmo. Poetas do Espírito Santo - FCAA - UFES - PMV - 1982.

Poesias

AOS MEUS PRIMEIROS AMORES

Quanto amor coube em meu peito
todo era de Francina;
a mais formosa e gentil,
a mais florida menina.

Pretendi a posse dela
com intenso, extremo amor;
não eram bens que eu buscava,
era de sua alma o frescor.

Porém, um pai impiedoso...
Oh! não, a tirana sorte,
revesou castos projetos,
a dois corações deu a morte.

A um, tormentos sem fim,
toda a sorte de amargura;
a outro, pior sentença:
-Carpir sempre a desventura.

Na distância de cem léguas,
à noite, na solidão,
os olhos soem chorar,
o choro corta a expressão...

Só a Deus, sublime e justo,
é dado amor decifrar;
segredos do coração
quem é que pode contar?
 
TROVA

Só a Deus, sublime e justo,
É dado amor decifrar;
Segredos do coração
Quem é que pode contar?
 
LUZ E VIDA

Nasce o infante; d'alvo colo, o seio,
Acalenta-lhe o tímido vagido;
D'informe embrião em homem convertido,
Sente e quer e pensa e de permeio

Chora e ri, contente ou arrependido
Do quanto obrado tem. Presto o enleio
Da morte, quede manso o há seguido
Abate-o:- o fatal termo sobreveio

Da flor extinto o cheiro, a flor existe.
Sábios, dizei, agora em que consiste
A centelha que do corpo se evolou?

É átomo que no éter se acastela
Ou luz coada d'ignota Estrela,
Que foco de origem regressou?
 
DERROTA DE UMA VIAGEM AO RIO DE JANEIRO EM 1817

"Adeus, Vitória! digo então, comigo,
Sultana que sobr'o mar o colo inclina!"
(Canto VI)

"Qual o que raio viu, vi vacilante
Turvar-se o mar: desperto do tormento,
Eis sobranceiro a mim vejo um gigante (...)
Que a linguagem vulgar chama Penedo".
(Canto XII)

"A leste vejo a velha fortaleza
Que o sacro nome tem de S. João;
Corre o lenho veloz e com destreza
A Pedra d'Água vai, foge o Romão;
Ilha das Cobras com igual presteza
E das Pombas também correndo vão;
Desaparece a Ilha do Vigário,
Por igual a da Minhoca ou Boticário".
(Canto XIV)
 
 
       
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