P o e t a s
   
 
Darly Santos

Dados Biográficos:

Darly Santos nasceu no município de Vila Velha, no Estado do Espírito Santo, em 26/09/1920 e faleceu em seu município mesmo, de enfarte, no dia 20/05/1985. Jogador de futebol - e dos bons - radialista e jornalista até o final da vida. Poeta, gostava de escrever louvando o município onde havia nascido, Guarapari e Cachoeiro de Itapemirim. Muitos de seus poemas se perderam, pois ele os escrevia manuscritos e dava até mesmo a pessoas desconhecidas, dentro dos ônibus. Morador da Barra do Jucu, Darly tinha paixão pelo lugar. Sou "canela verde". Era assim que o maratimba Darly Santos se identificava quando alguém perguntava de onde ele era. Canela verde é o nome dado a quem nasce em Vila Velha, município amor de sua vida. Darly viveu seus últimos anos de vida em Barra do Jucu, o bucólico cantinho que escolheu como seu, que amou apaixonadamente, como Maria, a mulher e musa inspiradora. Suas poesias mostram e provam esse amor todo. Homem simples, suas poesias o retratam como foi. As que que constam da revista Intelecto, n. 3, ano I nov.dez/2002, foram cedidas pela sua viúva Maria Luiza Coutinho.
Obs. da organizadora deste site: Darly Santos, com seu Programa na Rádio Espírito Santo, foi muito importante para que eu ali apresentasse minhas primeira crônicas, recebendo dele prêmios e um grande incentivo para continuar escrevendo. Guardo dele uma enorme saudade.


Obras:

Escreveu um livro "Todos amam sua terra". deixando-o pronto, com prefácio e tudo o mais.

FONTE: Dados fornecidos por sua viúva Maria Luiza Coutinho,

Poesias

BARRA DO JUCU

Madrugada que vai se despedindo,
Manhã aos poucos surgindo,
Pescadores descontraídos conversando.
Eles vão passando, vão passando...
Talvez muito peixe no tresmalho.
Coroando intenso e corajoso trabalho,
Sendo mais uma esperança que fenece.

Barra do Jucu...
Morros na distância, azulados,
Rio rumo ao mar encapelado,
Vento rasteiro que vem do Norte,
Ou vento Sul rápido e forte.
Barrense que dorme cedo e cedo se levanta,
Como a passarada que tanto canta.
Passam as caçambas com os operários,
Pontuais em seus matinais horários.

Barra do Jucu...
Noites silenciosas, de meditação,
Sob a luz elétrica ou na escuridão,
Sempre presente a tranqüilidade,
Que a terra é toda docilidade
Mesmo nos momentos de aflição.
Na luta de todo dia pelo pão,
O barrense é silencioso e discreto,
Como que à espera de afeto.

Barra do Jucu...
Homens afeitos às lides do mar,
Pesca do pargo, do roncador, do peroá,
Trazendo no rosto curtido, estampado,
O vinco de luta que vem do passado.
Duquinha, pai do Maneco,
Hildebrando, de Brandinho,
"seu" Írio, de Ismael,
canoas, redes, mar, peixe, céu...

Barra do Jucu...
Sino bimbalando na tarde dominical,
Preces, jovens em madrigal
Passeios alegres na pracinha,
Casais, namorados, criancinhas...
Garotos brincando de picolê
("onde vou me esconder"?)
Mães chamando: "tá na hora de dormir..."
Os dias passando sem a gente sentir.

Barra do Jucu...
De repente chegou a eletricidade
A água de melhor qualidade
O fim da longa solidão
E novos horizontes para a região.
Restaurantes, padaria, novos habitantes,
Ônibus, automóveis, visitantes
Desperta para o progresso o distrito
Com viver muito restrito.

Barra do Jucu...
Céu, mar, pescador,
Vento sossego, trovador,
Rio, frutas, praia,
Noite de luz, sol que raia...
A luta do homem, o riso da criança,
A expectativa e a esperança,
Nas brumas do tempo o passado
E um presente longamente esperado.
 
COTIDIANO BARRENSE

Quando a claridade matinal desponta atrás do Morro da Concha eu estou de pé...
Os pescadores passam conversando,
Os pássaros estão gorjeando,
Meus pombos começam a arrulhar.
Meus cães vêm me afagar...
Quando o sol começa a espargir sua luz sobre as areias da imensa praia da Barra do Jucu eu lá
me encontro, no encontro diário com a pureza do ar que me envolve e acaricia...
Meus cães brincam como crianças
Pescadores estão mirando os tresmalhos,
De muito peixe, muitas esperanças
E de lagostas nos cascalhos...
Quando os pescadores descem do rochedo, equilibrando-se sobre rústica escadaria, eu venho
com eles, alegres quando os tresmalhos foram generosos e taciturnos quando de mãos vazias...
Aquela imensidão de mar ondulante,
Celeiro de tanto pescado,
Onde se assentam canoas balouçantes
Nada para o grupo decepcionado...
Quando o povo se encontra no mercadinho, olhando os peixes, regateando preços, criticando
suas oscilações, eu lá estou testemunha e observador de tudo que ali acontece...
"Me arranja um quilo de xaréu".
Diz a senhora de rosto enrugado.
O velho com seu inseparável chapéu
Acrescenta: "É óleo puro esse danado".
Quando todos se afastam, rumo aos lares e a novos afazeres, sigo o mesmo destino, divertindo-me
com o espetáculo de quase todo dia - censuras, gozações, críticas, ressentimentos que se
apagam na primeira esquina...
Amanhã, se bom estiver o dia,
O freguês discutirá com o intermediário,
O pescador geralmente não se arrelia,
Levando outro a fama de "ordinário".
Quando caminho para o ponto de ônibus os garotos pedem-me bolinhas de gude, as mulheres
estão atarefadas nas cozinhas, cachorros deitam-se preguiçosamente no meio da rua, muitos
homens conversam e bebericam nas vendas...
'Você me trás umas bolinhas?"
Pede o "Bochecha" de ativa inteligência.
Cheiro de moqueca que vem das cozinhas
E nas vendas aquela negligência...
Quando o coletivo corta a estrada poeirenta, levando estudantes em algazarra, cidadãos pensativos,
aquela mistura de gente nem sempre em estado de alegria, olho o mar que se estende à
minha frente...
Ondas brancas em mar de variadas tonalidades,
Aquele vai e vem incessante,
Sugerindo que, como a felicidade,
O oceano é um inconstante...
Quando retorno à noitinha, saudade outra vez acumulada daquele recanto tranqüilo, daquele
provinciaanismo, daquela natureza que tanto me encanta, saudade da infância de pés no chão...
A prainha está iluminada,
Nas vendas as conversas sem profundidade,
Os gritos da infância alvoroçada,
Minha infância de tanta saudade...
Depois o lar, o reencontro de quem se gosta, o sossego, a leitura, o sono até que a noite se vá...
 
GUARAPARI

Praia de lindas castanheiras,
Copadas, aconchegantes, altaneiras...
Praia lírica dos namorados
Quantos sonhos encantados
Areias pretas, radioatividade,
Para muitos, enfim a felicidade
Ruas de fonte e das bonecas
Irmãos Lira - gostosa moqueca.
Bairro Ypiranga, irmão de Olaria,
Festa de São Benedito, muita alegria.

Guarapari, encanto que não se acaba,
De outro lado, bucólica Muquiçaba.
Bandinha de música, afinada.
Peixe do "alto" saborosa pescada.
Dezembro, sol quente, verão,
Gente rica, de variado rincão.
Braço de mar pelo mangal,
Siri, caranguejo, carapau.
Derrubada do mastro de São Benedito,
Cânticos lamentosos, tão bonitos...
Depois da derrubada, a puxada.
Reminiscências de épocas passadas... Guarapari, pedaço tão bonito
Do meu lindo Espírito Santo.
A velha igrejinha colonial,
Lembranças de Anchieta, paternal
Pescadores que se lançam ao mar, Lá nas distâncias as Escalvadas,
Marisco, solidão, pescadas...
Pescadores que saem de madrugada,
E que retornam de fisionomia cansada.
Vento brando ou vento forte,
Que vem do Sul, Leste ou Norte.

Guarapari, belas noites de lua,
Canção que diz: sou tua, sou tua...
Velhinhas de idade indefinida,
Rostos enrugados, cabeças encanecidas...
Olhos baços, frios, amortecidos,
Quanta cousa por eles assistidos.
Trabalhos de concha, arte popular
Boneca, pulseira, brinco, colar
Conchas grandes, pequenas, coloridas.
Búzios, caramujos, coisas lindas! Ondas, espumas, Clube Siribeira...

Guarapari - eu fico por aqui,
 
 
       
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