P o e t a s
   
 
Alexandre Moraes

Dados Biográficos:

Alexandre Moraes nasceu no Rio de Janeiro, em 1955 e transferiu-se para o Espírito Santo em 1971. É professor e pesqusador da Universidade Federal do Espírito Santo - UFES, na área da Literatura. Concluiu os cursos de Mestrado, Doutorado e Pós-Doutorado no Rio de Janeiro e em São Paulo.


Obras:

"Pra-todo dia" - 1986
"Objetos com nomes" - 1995
"Pequenos filmes sobre o corpo" - 1997
Participação na Coletânea Instantâneo: poesia e prosa: fermento literário/ Secretaria de Estado da Cultura do Estado do Espírito Santo, Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, Vitória - 2005

Em fase de produção "Zero Um Dois Sangue Som Fogo", em parceria com Fabricio Noronha, previsto ainda para este ano.

FONTE: Instantâneo: poesia e prosa: fermento literário Santo, Vitória - 2005

Poesias

COISAS QUEBRADAS

I

noite sem palavras
flutuando sem segredo,
interditado sem modernismo
palavra pulando sequer
vírus que não se quer,
Ao fim,
nem poeta nem triste nem alegre
geração perdida
de coisas quebradas.

A alma é pobre
a coisa fura uma ditadura
ilhas ilhas ilhas
roteiros roteiros roteiros
boca flutuando entre boca
um fantasma tece a manhã
na água
água
ou
faca
vermelhos escorrendo
balas trânsito dentes
não perdi, não joguei
afundei, nenhuma água.

jazz heavy macumba
bossa soul de samba pra estudo
samba raro
bossa funk samba
de esquadro quebrado,
vida, noves fora,
tudo dentro
sem entardecer ou pergunta
morrer ou utopia
sem estrelas ou escurecer
sem cárie ou pose
sem adoecer ou cigarro
sem escurecer ou fumaça,
flutuando entre ilhas
segredo sem mistério,

e não tem mais nada aqui
entre buracos
ou explodindo uma bomba na solidão
ou estando dentro
no samba de esquimó
pra nenhum carioca
colocar defeito de fabricação,
é o mar
é o mar
o mar o mar o mar,
o samba longe de todos
os afogados no fundo do nada.
(ain't no running away?, rise up?)

II

Liso
imensamente só,
hipotenusa
sem catetos ao redor do olho.

Só te vejo quando te reinvento.
Nunca mais me vi.

III

Os dias
entre a última bala
e os primeiros cansaços.
Um deus de imagens
(gelatina ácida
silêncio hard core)
sem músculos
recolhe os detritos e joga no infinito.
Então me calo
doido na noite
Olhando as palavras e os trens.

IV

minto a falta de ar no ar
que ar no ar mesmo não há.
aqui sonhos sem chuva que se partem
e não voltam mais nunca nem depois.

V

coisas que se quebram
corpos deitados num aqui
a câmara dos vigias
o que estendo por visto
coração enorme batendo
pulso esmurrando
nas manhãs sem rima

VI

coisas quebradas
vídeos
pequenos filmes
sobre o corpo
detritos de tudo,
dos antes e dos depois
farelos de um poema
que seria
em outra língua
mas que ana c. carregou
num interlúdio.

VII

eu
esse pronome numérico
números de identidade
tantos a mais.
uma pessoa
ilha delimitada
em dois
setes
quatros
em cincos.
nas manhãs sem poesia
pura fome eu
olhando coisas quebradas
por toda volta
os ratos os rotos
essas palavras nessa língua camões
em outra língua nunca nesta
mas sempre desta
dor leminski por toda palavra
entre
eu.

VIII

tenho estado ilha por todo sem mar
esses quase teus olhos
de tanto mar
me navegam de algo amor
trituram de nada e ressaca

amado o que me afoga
sem mão sem língua afaga
esses teus olhos que
nada dizem nunca
tudo olham-me nada
de estado a mim
só contigo e mal comigo
por todo mar tanto seco.

IX

morri na contramão
o amor não espera
o trânsito corta
flutuo no ar preso ao chão
deslizo parado como chuva
estou onde não sou
tenho o que silêncio
sinto o que gás escapa
então,
o trânsito a chuva
esse desenho trágico
de máquina sem sentido

um anjo torto desiste
caminho de manhã
flutuar de quem na contramão
no contramor
contradedo
contradia
sobro farelo de construção.

X

alguma montanha mágica nenhuma
nada de liso do sussuarão
coisa qualquer de inferno e dante
apenas coisas quebradas
um olho
com um buraco no meio
extensão e paisagem
coisas que se quebram.
 
 
       
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